Memórias de Guégona #7: último dia 27! Quero Jogar RPG BH & 27° encontro da 'campanha' de Guégona

Preciso escrever justamente quando chego da rua e não tenho muita energia para registrar aquilo em que passei o dia inteiro pensando. Voltei da minha aula de seminários sobre narradores no romance brasileiro contemporâneo (que é também minha aula de levar parcialmente adiante o projeto do 'antigo castelo') e agora devo escrever sobre aquilo em que pensei durante toda a última semana.

Ocorreu ontem, 27 de setembro de 2026, a segunda edição deste ano do Quero Jogar RPG (BH), evento promovido pela Associação de RPG de Belo Horizonte. O local foi o Siry Caskudo, uma hamburgueria no Santa Tereza onde às quintas-feiras, quinzenalmente, tenho participado também de uma mesa de Gurps 4e mestrada pelo David Lima. Este segundo evento regular que menciono ('evento de quinta') se chama RPG Happy Hour, e não é dele o holofote hoje; vou é registrar o tal do Quero Jogar RPG de ontem, enfocando também algumas questões do meu interesse particular (e do interesse do meu círculo social de jogadores, de par à estima de que um pouco de atividade autorreflexiva colabore com meu desenvolvimento como árbitro de jogo e possibilite assim identidades progressivamente maiores entre o número de horas que passo me divertindo enquanto arbitro e aquele que passam os jogadores se divertindo enquanto jogam).

Sei que houve uma mesa de Daggerheart, jogo a respeito do qual meu conhecimento se encontra limitado a uns 15 minutos de leitura do livro base de regras, que realizei quando estive na casa da minha amiga Natália em Criciúma, SC. Sei que houve uma mesa em que o pessoal jogou For The Quest; sobre esse sei que não é precisamente um RPG, mas um jogo de tabuleiro (eu imagino que incorpore algumas determinações dos RPGs) com cujo nome, ao menos, meu primeiro contato foi tendo-o visto no Cartapácio de Monstros (de Jonas Picholaro, editado pela Nozes Game Studio e impresso em 2024) com o qual o Iago carinhosamente me presenteou no meu último aniversário. Talvez o Edy, o responsável pelo evento que estava lá, tenha mestrado um outro jogo (confiro registros de conversas enquanto escrevo para tentar averiguar), mas não tenho certeza. Sei que uma mesa de Mothership aconteceria mas acabou não acontecendo, infelizmente. Eu levei Guégona para jogarmos, e preparei um local de aventura especial para a ocasião: a Gruta do Matacobra.

Cumprida parte da importante tarefa de registrar esses nossos acontecimentos ‒ nossos do nosso passatempo, na nossa cidade e na nossa década ‒ e tendo dito (digo agora) que: é delicioso o sanduíche vegetariano do Siry Caskudo, sendo este o único que comi, mas todos meus amigos onívoros me disseram que o restante do cardápio é igualmente apetitoso; tendo dito isto, prossigo escrevendo da minha experiência na única mesa que eu vi acontecer integralmente, que foi a dos Túmulos de Guégona, que eu arbitrei por lá neste domingo abafado.

Anunciei o jogo como uma mesa de OD&D, usando este termo. Não me agrada muito, parece coisa de ianque, mas como fugir da expressão quando é ela que cabe para identificar o objeto? Para os meus amigos, quando mestro sou um mistificador, e por isso os enganei a todos numa transição silenciosa dos elementos mecânicos da nossa campanha (que fora iniciada usando os livros de AD&D 2e que eu acabara de adquirir à época) a partir de Old School Essentials para o constructo Dungeons & Dragons original. Para um jogo público como o do QJ-RPG, entretanto, não me pareceu a postura adequada e portanto optei pelo melhor termo.

Além de mim, vieram participar da mesa seis outras pessoas, uma delas a tradicional Yasmin. Foi um grande prazer conhecer todos os participantes (e também as pessoas lá que conhecemos recentemente mas com as quais ainda não tivemos a oportunidade de jogar), e o fato de que ali eu mestrava uma one-shot para desconhecidos, ambos fatores pela primeira vez, não foi capaz de impedir uma agradabilíssima experiência de grupo, ainda que tenha me impedido de conduzir a ficção com a assertividade usual, que me vem com mais facilidade em longas sessões para longas aventuras de grupos, em geral, de amigos meus.

Tivemos três horas, arredondando, para jogar. Eu e Yasmin preparamos personagens (13 ou 14) para escolha dos jogadores com objetivo de economizarmos tempo ao início. Para minha supresa, ninguém pareceu se incomodar sequer com os nomes, que já tinham sido escolhidos de antemão. Mesmo que pudessem mudá-los, informei, ninguém escolheu. Se bem que eram bons nomes, alguns muito bons. De fato, acho que a disposição dos participantes já ia no sentido de entender aquele jogo como um teste: do ambiente do evento, dos outros jogadores, do árbitro, do sistema, por aí vai, e por isso não era prioridade sentir-se "autor" de seu PJ naquele momento. E nem é que sentir-se "autor" de um aventureiro de 3° nível seja nosso jogo o tempo todo, mas imaginei que pudesse ser uma demanda num jogo público (costuma ser com muitos amigos!). Bem... suponho que foi deste modo porque é conforme a percepção que tive, e aqui vai uma questão que superei em relação a meus amigos mas não ainda em relação a novos participantes da mesa, que é não compreender com agilidade os humores e as reações fisionômicas de cada um dos participantes em relação aos eventos acontecidos na sessão. Ao passo que não busco precisamente adequar a aventura ao capricho dos jogadores, entendo que há um papel de coordenação moral do bando que é atribuido ao condutor da ficção, assim como há atribuido ao condutor de uma aula, e em ambos os casos importa saber como o temperamento de cada um dos participantes engajados situa-se durante os diferentes estágios da aventura (para que queiram voltar no próximo encontro agendado).

Algum nervosismo da situação (contemplo a pressão do tempo e por um arco narrativo completo, com os quais não estou acostumado) me levou, por fim (do comentário, mas não da minha percepção), a uma descrição pobre do ambiente que os personagens infiltravam (me compliquei neste quesito quando desenhei o mapa da gruta, devo dizer, porque é demasiado sinuoso). E como era importante ter feito melhor as descrições! Não conseguir visualizar o espaço em que se encontra por causa de uma falha como esta minha é um tensionador destrutivo da relação realidade-ficção. Sei que em contrapartida fiz um bom trabalho em apresentar monstros atípicos com aparências grotescas, apesar de que eu bem poderia também ter sido mais econômico no meu uso do tempo de fala; os jogadores o teriam utilizado melhor.

O resultado foram três encontros, a descida de um riacho gruta abaixo, um TPK na "sala-objetivo" e a vitória de... Pem Xabec? Não! Desgraçado seja eu, que disse Pem Xabec, mas quiz dizer Haactheoszazá, o demônio! A culpa é minha, por ter me perdido nas minhas próprias notas e não ter quisto, naquele momento final do nosso encontro, me demorar para dar um nome neologístico alternativo aos jogadores, para os quais, naquele momento, diferença nenhuma faria esta informação mais precisa.

Quando chegavam as 18h, horário previsto para o fim do evento, o Edy tomou momentaneamente o cetro e falou um pouco sobre a Associação de RPG de BH e sobre seu antecedente; falou sobre a arrecadação de brinquedos ali organizada em virtude de projetos sociais de acolhimento; e entregou para cada um dos responsáveis pelas sessões do dia um exemplar do jogo Pulse ‒ Fast Play. Já li pela primeira vez o conteúdo do panfleto, e ele parece muito interessante. Cabe numa outra postagem futura, possivelmente, mas cabe também num próximo Quero Jogar RPG (já considero facilitar uma mesa deste jogo numa das próximas oportunidades). Talvez me faça perceber que o jogo clássico de Dungeons & Dragons é mais adequado à campanha, mesmo, com suas militaridades e algebrinhas contraintuitivas. Amo-as.

* * *

Vejo que cada parágrafo aqui aceitaria mais dois ou três como complemento; nomeei alguns pontos que exigem minha melhora, mas não necessariamente sempre apontando para os caminhos da solução. Como sempre, escrevo os textos do blog num misto de empolgação e cansaço, porque isto é o registro da reflexão, dos acontecimentos, e não o preparo para continuar jogando, fazendo acontecer. O resultado é um fluxo de consciência meio preguiçoso (sem nenhuma má vontade), que prometo tentar proteger de todas as tendências autoindulgentes que o estilo implica; por outro lado, se viro de fato editor para além de escritor das postagens, nunca postarei nada, ou ao menos postarei muito menos do que acho correto.

Agradeço a todo mundo que participou, organizou, viabilizou o evento do último domingo. Vejo-nos todos daqui a 15 anos, federados em castelos belorizontinos de ficção (conforme revelado pelo Mestre do Destino numa carta para Oida).


 
Implementos da mesa de Daggerheart.
  

Mesa de For the Quest.
 
Nossa mesa de OD&D, de um ângulo esquivo.


 Escaramuça!
 

Nós que jogamos com Guégona.

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